• Brasileiro cria casa do futuro que produz sua própria energia

    Localizada em SP, casa é idealizada pelo brasileiro João Barassal. Sobrado possui turbina eólica, painel solar, sistema de filtragem de água, entre outras tecnologias

    À primeira vista, a casa do engenheiro eletrônico João Barassal não se distancia das outras do bairro Jardim São Paulo, zona norte da capital paulista. Mas é só levantar os olhos para ver que o sobrado é coroado pelas hélices de uma turbina eólica. Algo que indica sua “personalidade” distinta e algo que tem chamado a atenção de vizinhos e transeuntes mais atentos da região.

    É manhã de terça-feira, e o proprietário da casa me recebe com a simpatia de um anfitrião que sabe que sua casa merece certas legendas: “tudo aqui é sustentável”, diz apontando para os móveis de madeira reciclada, para o piso e os tijolos à vista feitos com materiais de demolição.

    O barulho vindo da garagem avisa que o carro está sendo abastecido ali mesmo, no caso uma bomba a gás. Tomadas elétricas na parede foram instaladas especialmente para receber um modelo elétrico nas próximas semanas. Já sobre o teto da garagem, um painel solar se dispõe discretamente.

    Um curto lance de escadas leva para o quintal da casa. Ali Barassal indica a cisterna, o módulo de compostagem e uma pequena horta. A alguns passos, o engenheiro mostra o sistema de filtragem da água vinda da chuva: “toda água que chega aqui é aproveitada, passa por aqui e fica pronta para consumo”. Horas mais tarde, depois de me oferecer um copo d’água, Barassal sorri e pergunta: “gostou da nossa água?”.

    Não faz muito tempo que o engenheiro se mudou com a mulher e o filho de oito anos para a casa na zona norte. Cerca de nove meses. Sob o título de “primeira casa inteligente da América Latina”, Barassal se orgulha de que a residência se tornou modelo para outras iniciativas não só no Brasil, mas mundo afora. Segundo ele, sua casa está a frente de projetos sustentáveis na Califórnia e Alemanha. E com uma diferença que ele ressalta: “somos um modelo vivo. A gente mora aqui, não é como uma casa de showroom”.

    O projeto para a casa smart começava há cinco anos. A sugestão, inclusive, veio do filho. Na imaginação do menino era perfeitamente possível uma casa que produzisse sua própria energia e reciclasse bens de consumo perecíveis. E, bem, e de quebra fosse controlada na palma da mão, pelo celular. “Eu pensei que legal, ele já tinha toda essa consciência ambiental. Por que não fazer?”, lembra.

    Para tirar a ideia do papel, o engenheiro contou com a parceria de algumas empresas, muitas delas com sedes em outros países. A turbina eólica, por exemplo, é tecnologia japonesa enquanto o painel solar é espanhol. Ao todo, 55 empresas têm suas soluções tecnológicas na casa de Barassal e família. A expectativa é que este número expanda a medida que o projeto ou, melhor, a casa evolui.

    É o caso de um aplicativo que está sendo desenvolvido para controlar os dados gerados por casas inteligentes como a de João e, consequentemente, automatizar muitos processos. Segundo o engenheiro, a ferramenta criada em parceria com a Microsoft será lançada em breve e ficará disponível na App e Google Store. A ideia é que sensores, ou em um termo mais atual, a Internet das Coisas, ganhe toda a casa e converse com outras aplicações, como o seu carro.

    A automação é parte essencial e, talvez, um dos grandes chamarizes do sobrado. Pelo smartwatch e smartphone, é possível controlar algumas funções, incluindo a iluminação. Se sensores instalados nos cômodos notarem que não há ninguém neles, eles também desligarão “sabiamente” as luzes.

    Um sistema de biometria facial registra e libera a entrada de convidados que têm permissão para entrar. Se alguém, por exemplo, tentar entrar na casa e não estiver cadastrado no sistema, um aplicativo alertará seus donos de que talvez algo não esteja de acordo.  E, claro, tantos dados gerados são computados por um data center próprio localizado no andar de cima da casa.

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    Modelo a ser replicado

    Barassal fala da casa com o entusiasmo que inovações proporcionam. E dá pormenores sobre como cada recurso foi pensado para ser, em sua essência, sustentável, inteligente.

    A Smart Eco House surge também com a empresa de mesmo nome fundada pelo engenheiro. Por meio dela, Barassal é chamado para dar consultorias em projetos que envolvem soluções como as desenvolvidas em sua própria casa. Segundo ele, empresas já o buscam para replicar o modelo em projetos para condomínios fechados. “É algo que as pessoas têm se sensibilizado. E você vê, há alguns anos eu disse que ia faltar água em São Paulo e ninguém acreditou. Nossos recursos estão acabando, precisamos rever isso”.

    Uma casa com recursos sustentáveis custa em média 40% a mais num primeiro momento. O valor tende a se pagar com as economias geradas ao médio e longo prazo. Barassal também chama atenção para o fato de que tecnologias se tornam mais acessíveis com o tempo, caso dos painéis fotovoltaicos.

    A cada novo visitante que busca saber mais sobre o que há por trás da “casa do futuro”, Barassal estende o convite de conhecer a parte do sobrado que dá acesso à turbina e aos bastidores de toda energia gerada. Foi assim que eu fui parar no sótão da residência. Ali, Barassal mostra como um tubo é capaz de canalizar a energia solar e direcioná-la para a iluminação natural da casa. Vale ressaltar que a residência produz toda a energia necessária para o seu normal funcionamento e um excedente que poderia atender muito bem mais duas casas e que é vendido para a concessionária de energia elétrica.

    João Barassal, o engenheiro que se diz ser uma espécie de professor Pardal – criando coisas a todo o momento – se orgulha ao dizer que em dias de falta de energia no bairro, sua casa é a única a se manter com as luzes acesas e, claro, todo o restante em perfeito funcionamento: “o pessoal fica se perguntando: mas como?”, diz entre risos.

    “A questão é que eu me preparei para isso”, diz Barassal quase como se desse um conselho: há de se prevenir, não?